CAPÍTULO 23
Luana não agüentava mais ficar presa naquele quartinho imundo, estava fraca, pois passara a noite de ontem e o dia de hoje sem comer ou beber. Já não conseguia raciocinar muito bem, olhava para todos os lados em busca de alguma saída. Viu um raio de luz, em toda aquela escuridão, vindo de uma abertura feita em uma janela, que estava praticamente no teto. Ela procurou rapidamente algo para que pudesse alcançar aquela brecha, pegou várias caixas que estavam jogadas ali e empilhou, fazendo-as de apoio.
- Droga! Não tem como abri essa janela – Luana esmurrou os cortilhos da janela, fazendo os romper – Essa porra tá tão podre que vai ser fácil sair daqui! – Sorriu Luana.
Ela começou a dar cotovelada nos cortilhos, partindo-os no meio. Depois de alguns minutos, já era possível sair dali. Luana pulou para o outro lado da casa, entrando pela cozinha, que ficava na lateral esquerda. Abriu com rispidez uma gaveta, onde se encontrava o aparelho de jantar da casa. Luana pegou um facão, desses de peixeiro e foi em direção ao quarto de seu pai.
- Então quer dizer que eu não tenho coragem de te matar, não é miserável? – Luana falou baixinho para si mesma.
Chegou bem próximo da cama, ajoelhou-se diante do pai, que dormia de lado e roncava igual a um porco que estava prestes a ir ao abate. Pôs a mão sobre o coração do pai, inclinou a ponta da faca na mesma direção e fez uma expressão voraz, parecia um animal que estava somente esperando a hora certa para devorar sua presa.
- Talvez você até tenha razão! Matar você enquanto dorme seria muito depressivo, não teria graça nenhuma... Quero ver você agonizar até o último suspiro! Pode ser que não seja morto por minhas próprias mãos, mas tenha a certeza de que sua hora vai chegar! – Luana começou a gargalhar como fazia quando estava tramando algo.
Marcos acordou assustado e arregalou os olhos quando viu a filha na sua frente com uma faca apontando para seu peito.
- O que você pensa que está fazendo? – Disse Marcos.
- Mostrando a você que sou bem pior do que imaginou e que não tenho medo de suas ameaças. Olha para você, não passa de um bêbado abandonado, esculachado e desajeitado. Pretendia me dar uma lição de moral me prendendo naquele chiqueiro?
- Você está completamente louca, abaixa essa faca! – Gritou Marcos.
- Cala essa sua boca suja! Quem dá as ordens aqui, agora, sou eu e acho bom você me obedecer...
- Quem você pensa que é?
- Um monstro que foi criado por você!
- Eu vou surrar essa sua cara cínica para aprender a me respeitar!
- Se encostar um dedo em mim, mato você! – Gritou Luana – Mas não será preciso... Você irá definhar aos poucos, se duvidar, vai morrer de cirrose, papai – Ironizou Luana.
- Você é mesmo uma ordinária pior que sua mãe! Faço um favor mantendo você em minha casa e assim que me agradece? – Agora era Marcos que ironizava.
- Do que você está falando, bêbado imundo?
- Eu não sou o seu pai! – Marcos olhava no fundo dos olhos de Luana.
Luana não esboçava nenhuma reação, estava perplexa, duvidava das palavras do homem que a criou. Deixou cair a faca que estava em suas mãos, uma lágrima caíra de seu olho esquerdo e suas pernas já não agüentavam suportar seu peso, fazendo-a cair diante de Marcos, que matinha sua postura firme e ereta.

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