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segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

DES | ILUSÃO

Uma história de Gabriel Colares.


CAPÍTULO 11.


- Filha, será que nós podemos conversar um instante?
- Claro pai! Aconteceu alguma coisa?
- Não sei! Isso você é quem vai ter que me dizer. Tenho te visto tão triste nesses últimos dias, Luiza. Não quer se abrir comigo?
- Ah pai... Estou vivendo um dilema. Não sei qual caminho devo seguir ou quais escolhas eu deva optar. Estou dividida, confusa, perdida...
- Você já pensou em escolher aquilo que te faz feliz?
- Se eu fosse à procura da felicidade, seria muito mais fácil seguir a vida. Mas tem coisas que não aliadas à felicidade. Não posso simplesmente seguir meu coração e esquecer todas as pessoas que dependem de mim.
- Mas você não pode se martirizar e se autodestruir.
- Eu não quero sofrer e também não quero que as pessoas ao meu redor sofram.
- É muito pior do que eu imaginava minha filha!
- Você não tem noção do quanto é difícil tomar uma decisão acertadamente. Mas eu preciso tomá-la. E no momento, o melhor a se fazer e seguir a razão. Não posso me deixar levar pelo amor de Vinícius e esquecer o Ângelo e os problemas de saúde da tia Denise.
- Sua mãe ficaria feliz em ver que você se importa com a irmã dela. Mas ela ficaria muito mais feliz se você seguisse o seu coração e não fosse totalmente racional. Qual a graça de se ter sempre razão? Se existem regras é para serem descumpridas. Não se limite, lute pelo o que você quer e deseja.
- Pai... Você não sabe o quanto me faz bem ter essa conversa com você. Eu estava realmente precisando de um ombro amigo!
- Esse é meu dever, Luiza, te aconselhar sempre – Cláudio abraça a filha.
- Você faz bem mais que o seu dever, seu Cláudio. Te amo!
- Te amo muito mais. Boa Sorte! Espero que faça a escolha certa...
- Eu também espero papai.

A conversa com Cláudio, fez com que Luiza repensasse todos os acontecimentos de sua vida. Desde o falecimento de sua mãe (Sônia, mãe de Luiza, faleceu há seis anos de um câncer terminal, por isso ela se sente tão culpada por pensar em não atender um pedido de sua tia Denise) até a declaração de Vinícius, o homem a quem ela amava e sonhava em viver uma grande história de amor. E definitivamente, tomou uma decisão.

- Luiza, minha sobrinha querida, que bom que você veio me visitar aqui! Ando muito solitária nesse quarto de hospital.
- Oi tia Denise! Como a senhora está?
- Temendo a morte e sentindo os efeitos colaterais da quimioterapia – Denise falava de forma bem triste e desconsolada.
- Será que existe alguma coisa que eu possa fazer para amenizar sua dor?
- Não, mas você pode fazer muito mais!
- Como? – Luiza assustou-se.
- Eu estou perto de morrer, sei que estou degradando aos poucos. Sinto que o meu fim está próximo e temo o que possa acontecer com o Ângelo quando eu não estiver mais aqui e quero ter certeza que o seu futuro está garantido antes deu morrer.
- Não fale assim, tia! Você não vai morrer tão cedo, você é forte...
- Luiza... Sei que é difícil pra você, mas o meu sonho é ver você casada com o Ângelo. Sei que você é uma menina boa, de caráter. Vai saber bem como orientar meu filho, sei também que ele tem uma conduta duvidosa, mas com você eu tenho fé que ele irá mudar.
- Tia, eu não sei nem o que te dizer!
- Me promete Luiza! Promete que vai se casar com o meu filho, me promete que nunca vai abandoná-lo, por favor... Não posso morrer sem ter essa certeza!
- E... E... Eu prometo tia Denise!  – Afirmou Luiza bastante nervosa e com muita dúvida.

Luiza saiu correndo daquele quarto, reservado para pacientes internados nos Hospitais da rede Hapvida. Não conseguia parar de chorar, agora era ela quem estava sem rumo. Fez uma promessa póstuma e agora deveria cumpri-la. Sentia vergonha de si, por ser tão fraca e não ter força para enfrentar o “amor” de Luana por Vinícius. Desabou ali mesmo, no meio da rua, onde carros passavam e buzinavam para alertá-la, mas era desnecessário, ela parecia estar em outro mundo, atravessou a avenida sem olhar para os lados, quase sendo atropelada e causando uma enorme confusão de trânsito.

O mais certo a se fazer nesse momento era esquecer Vinícius completamente e seguir uma nova vida ao lado de Ângelo. Quem sabe ela não poderia ser feliz, construindo um novo amor, com outro homem. Ela precisava fazer com que Vinícius a esquecesse de vez e a deixasse seguir o seu caminho, mas ela não sabia o que fazer. Andando sem rumo, ela procurava uma solução para o seu problema. Não seria melhor jogar tudo pro alto, sair dessa cidade, respirar novos ares e fugir de todos os problemas? Essa é uma atitude clássica dos fracos, abandonarem o barco no momento em que ele propõe um suposto naufrágio. Então, qual seria a melhor solução para resolver tudo o que afligia Luiza?

- Oi crianças?
- Tia Luiza! – Todas as crianças do Orfanato João Guimarães corriam para abraçar Luiza.
- Meninas, como vocês cresceram, já estão umas mocinhas!
- A Senhora nunca mais tinha vindo visitar a gente, estamos com saudades de você – Disse um menino, devia ter uns sete anos.
- É que a Tia Luiza andava muito ocupada, procurando resolver alguns problemas sem solução. Mas vamos esquecer isso! Estou aqui, não estou?
- Trouxe algum presente pra mim, tia? – Uma menininha de cabelos loiros bem cacheados abria um sorriso quando foi ao encontro de Luiza.
- Hoje eu não trouxe, porque não venho de casa, mas prometo que da próxima vez, eu trago um monte de presentes para todos vocês!
- Êba! – Todos gritavam de felicidade ao ver Luiza.

Ao sair do Hospital e ter andado horas pelas ruas de Fortaleza, pensando numa solução, Luiza percebeu que precisava encontrar um equilíbrio para não se arrepender de seus atos. O melhor lugar, no qual ela poderia se divertir, esquecendo os seus problemas, era no Orfanato João Guimarães, fazendo trabalho voluntário, ajudando quem realmente necessitava, como ela sempre fazia, antes de todos esses conflitos surgirem.

Ser voluntária nesse orfanato aliviava toda a pressão sob as costas de Luiza e fazia com que ela ocupasse sua mente com uma boa e solidária ação. Dar alegria e diversão para aquelas crianças abandonadas pelos pais fazia com que Luiza percebesse como a vida é injusta, e quantos outros milhares de pessoas têm problemas piores que o dela e nem por isso desistiram de viver. O que Luiza precisava era aprender a saber viver.



"O amor é filho da ilusão e pai da desilusão".

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